Energia e evolução humana
A vida no Planeta Terra é sustentada pela energia. Os
organismos autotróficos retiram a energia directamente da radiação
solar, e os organismos heterotróficos retiram energia dos autotróficos.
A energia capturada lentamente por fotossíntese é armazenada na forma de
densos reservatórios que foram sendo acumulados ao longo da história da
Terra, ficando à disposição dos heterotróficos, que podendo usar mais
energia, evoluíram para os explorar. O Homo Sapiens pertence ao tipo
heterotrófico; na verdade, a habilidade para usar a energia
extrasomaticamente (exterior ao corpo) permite ao humano usar muito mais
energia do que quaisquer outros heterotróficos que tenham evoluído. O
controlo do fogo e a exploração dos combustíveis fósseis tornaram
possível ao Homo Sapiens libertar, num curto intervalo de tempo, vastas
quantidades de energia acumuladas muito antes do aparecimento da sua
espécie.
Usando a energia extrasomática com o objectivo de modificar cada vez
mais o seu ambiente, e para fazer face às suas necessidades, a população
humana ampliou de tal maneira os seus recursos base, que durante longos
períodos estes recursos excederam as suas exigências. Isto permitiu uma
expansão de população de uma forma extrema, semelhante às situações
criadas com a introdução de espécies não autóctones, propiciando assim
novos habitats, tal como é o caso dos coelhos na Austrália ou dos
besouros japoneses nos Estados Unidos. A actual população mundial de
mais de 5,5 mil milhões é sustentada e continua a crescer devido ao uso
de energia extrasomática.
Mas o esgotamento dos combustíveis fósseis, de que provêem três quartos
desta energia, está relativamente próximo, e nenhuma outra fonte de
energia que os possa vir a substituir é tão abundante e barata. Numa
perspectiva temporal, é previsível o colapso da humanidade, em apenas
mais uns poucos anos. Se houver sobreviventes, eles não poderão
continuar as tradições culturais da actual civilização, as quais
requerem fontes de energia abundantes. Porém, não é provável que as
diversas comunidades possam persistir muito tempo sem energia, cuja
utilização constitui uma parte muito importante do seu modus vivendi.
A espécie humana pode ser vista como tendo evoluído ao serviço da
entropia, e não é expectável que sobreviva às acumulações densas de
energia, que ajudou a configurar o seu meio. Os seres humanos gostam de
acreditar que controlam o seu destino, mas quando se faz uma
retrospectiva da história da vida na Terra, a evolução do Homo Sapiens é
apenas um episódio passageiro que actua no sentido do promover o
equilíbrio energético do planeta.
Desde Malthus, pelo menos, existe a noção clara de que os meios de
subsistência não crescem tão rápido quanto a população. Ninguém alguma
vez gostou da ideia de que a fome, a peste e a guerra são o modo de a
natureza reparar o desequilíbrio -- o próprio Malthus sugeriu que a
realização de "rastreios preventivos", os quais servem para reduzir a
taxa de natalidade, poderiam ajudar a prolongar o intervalo entre tais
eventos (1986, vol. 2, pág., 10 [1826, vol. 1, pág., 7]).
[1] E no entanto, nos duzentos anos
seguintes ao de Malthus pousar a caneta, não houve nenhum cataclismo
mundial. Mas, simultaneamente, durante esses dois séculos, a população
mundial cresceu exponencialmente, enquanto recursos insubstituíveis iam
sendo consumidos. Será inevitável algum tipo de ajustamento.
Hoje, muitas pessoas que se preocupam com as elevadas taxas de
crescimento demográfico e com a degradação ambiental, acreditam que as
acções humanas podem evitar uma catástrofe. As opiniões dominantes,
sustentam que uma população estável, que não ponha em causa a
"capacidade de encaixe" ambiental, seria indefinidamente sustentável, e
que este estado de equilíbrio pode ser alcançado por uma combinação do
controlo da natalidade, conservação ambiental e confiança nos recursos
"renováveis". Infelizmente, a implementação mundial de um programa
rigoroso de controlo de natalidade é politicamente impossível. A
conservação ambiental não é eficaz enquanto as taxas demográficas
continuarem a aumentar. E nenhum recurso é verdadeiramente renovável.
[2]
Além disso, o ambiente não tem a obrigação de manter constante a
população de qualquer espécie de organismo vivo por um período
indefinido de tempo. Se toda natureza estivesse em equilíbrio perfeito,
todos as espécies teriam uma população constante, sustentada
indefinidamente pela sua própria capacidade de sobrevivência. Mas a
história da vida envolve a competição entre espécies, com espécies novas
que evoluem, e velhas que desaparecem. Neste contexto, seria de esperar
que as populações das diversas espécies fossem variáveis, e para as que
foram estudadas, isso, na realidade, acontece (textos de ecologia como
Odum 1971, e Ricklefs 1979).
A noção de equilíbrio na natureza é uma parte integrante da cosmologia
ocidental tradicional. Mas a ciência não encontrou tal equilíbrio. De
acordo com a Segunda Lei da Termodinâmica, a energia flui de áreas de
maior concentração para áreas de menor concentração, e os processos
locais seguem este comportamento. Os organismos vivos podem acumular
energia temporariamente, mas com o decorrer do tempo o que prevalece é a
entropia. As diversas formas de vida que cobrem a Terra têm vindo a
acumular energia desde há três mil milhões de anos, não o podendo fazer
indefinidamente. Cedo ou tarde, a energia acumulada deverá ser
libertada. Este é o contexto bioenergético no qual o Homo Sapiens
evoluiu, e que é determinante tanto para o crescimento selvagem de
população humana, como para o seu colapso iminente.
ENERGIA EM EVOLUÇÃO
Nós estamos sujeitos, enquanto seres orgânicos, ao processo natural pelo
qual a Terra aceita energia do sol para posteriormente a libertar.
Existe vida na Terra há pelo menos 3500 milhões anos e tem havido,
durante este período de tempo, uma evolução clara e constante no modo
como a energia tem sido utilizada. As primitivas formas de vida podem
ter obtido energia através de moléculas orgânicas que se tenham
acumulado no ambiente, mas os autotróficos fotossintéticos, capazes de
processar por fotossíntese a energia da luz solar, evoluíram
rapidamente, tornando possível às diversas formas de vida escaparem ao
seu limitado nicho. A existência de autotróficos criou um espaço para os
heterotróficos, que processam a energia que foi antes capturada pelos
autotróficos.
Não está claro o mecanismo pelo qual se iniciou a fotossíntese, embora
consista numa combinação de dois sistemas que podem ser encontrados
isoladamente em algumas formas de vida ainda existentes. No entanto as
algas azul-verdes que estão entre os organismos mais antigos
documentados por via fóssil, já utilizavam este processo a duas fases,
eventualmente extensivo até às plantas verdes. Esta é uma sucessão
complexa de eventos que têm um resultado simples. O dióxido de carbono
(que havia em abundância na atmosfera primitiva da terra) reage com a
água, por intermédio da energia proveniente da luz, fixando carbono e
libertando oxigénio, sendo que uma parte dessa energia é retida enquanto
o carbono e o oxigênio permanecerem separados. As plantas libertam esta
energia, em função das necessidades do seu processo metabólico. (Starr &
Taggart, 1987).
Com o decorrer do tempo, a vida na Terra expandiu-se, de forma que,
independentemente do momento que se considere, cada vez mais energia era
armazenada na matéria viva. Assim, a energia adicional, em pequenos
incrementos, proveniente da matéria viva, foi acumulada abaixo da
superfície terrestre em depósitos que se tornaram carvão, petróleo e gás
natural, como também em pedras sedimentares que contêm cálcio e
carbonato de magnésio derivados de conchas. De todo o carbono que teve
um papel no processo da vida, apenas uma reduzida quantidade foi
separada deste modo, mas no decurso de milhões e milhões de anos, acabou
por atingir um montante considerável. Cada vez mais carbono foi
acumulado debaixo do chão, conjuntamente com um crescimento de oxigênio
na atmosfera da terra. Esta separação de carbono e oxigênio numa
atmosfera primitiva, na qual gás carbónico e água eram abundantes,
representa uma vasta acumulação da energia solar do passado terrestre.
A vida evolui no sentido de explorar todas as possibilidades
disponíveis, e da mesma maneira que os autotróficos desenvolveram
melhores técnicas para capturar e armazenar a energia do sol, os
heterotróficos desenvolveram melhores técnicas para se aproveitarem
disso. A locomoção independente estava adaptada à procura de nutrientes,
embora isso consumisse um pouco mais de energia, quando comparado com a
situação de estar sujeito à acção dos elementos. Na linha evolutiva, aos
peixes de sangue frio e aos anfíbios seguiram-se as espécies de sangue
quente, que colhem os benefícios de permanecerem activas em ambientes de
mais baixas temperaturas, consumindo ainda mais energia no processo. O
desenvolvimento da predação abriu acesso a uma provisão de alimento de
alta energia com um investimento energético adicional para obter isso.
Ao longo da história da vida, e na medida em que reservatórios
crescentemente densos de energia iam ficando disponíveis, as espécies
que utilizaram quantidades crescentes de energia, evoluíram (veja
Simpson, 1949, pp. 256-57). Este é o contexto natural do Homo Sapiens, a
espécie mais consumidora de energia que o mundo já conheceu.
O ANIMAL HUMANO
A quantidade de energia utilizada pela humanidade, é uma consequência da
capacidade que tem de adaptação à sua característica extrasomática. Esta
capacidade torna possível aos seres humanos ajustarem-se a uma grande
variedade de circunstâncias modernas, sem que tenham de esperar, durante
o processo evolutivo, pelo passar de muitas gerações, com o objectivo de
mudar ou adaptar os seus próprios organismos. Uma comparação entre as
formas somáticas e extrasomáticas de adaptação à vida, mostrará quão
notável uma habilitação deste tipo é importante, isto é: Se dentes
longos e afiados forem adequados a um predador, animais com dentes que
são ligeiramente mais longos e mais afiados, terão uma ligeira vantagem
reprodutiva, de forma que os genes responsáveis pelo aparecimento de
dentes mais longos e mais afiados, terão maior probabilidade de vingar,
e assim, ao longo do tempo, os dentes de uma população virão a ser,
pouco a pouco, mais longos e mais afiados. Em contraste, um caçador
humano pode imaginar uma ponta da flecha mais longa, mais afiada; ele
pode fabricar, facilmente esta ponta de flecha, com base na sua destreza
manual; e se esta for realmente mais eficiente que as pontas de flecha
rombas, que eram as mais utilizadas até então, os seus semelhantes,
adoptarão, desde logo, o novo modelo. A diferença principal entre os
dois meios de adaptação é a rapidez: A espécie humana pode adaptar-se,
em termos relativos, num reduzido instante de tempo.
A adaptação extrasomática é possível porque a espécie humana é, na
linguagem actual da era do computador, programável. A adaptação
somática, é semelhante à construção de um computador de geração antiga
para executar melhor uma determinada tarefa, face a um computador, dessa
mesma geração, previamente programado para esse objectivo. A adaptação
extrasomática, equivale à escrita de um programa novo para executar
melhor a tarefa, sem ter que construir hardware novo. O uso de idiomas,
com a sua relação arbitrária entre sinais e referências, torna possível
uma variedade larga de software diferente.
A programabilidade -- a capacidade para aprender -- não é exclusiva dos
seres humanos, mas eles desenvolveram muito mais essa capacidade
adicional, do que qualquer outra espécie. A programabilidade,
provavelmente, desenvolveu-se como uma resposta evolutiva face à
necessidade de flexibilidade. A capacidade para tirar partido de uma
variedade de recursos diferentes, é uma característica marcante da
espécie humana, sendo que para mamíferos placentários, esta capacidade
surgiu de formas ancestrais da ordem insectívora que presumivelmente
comiam insectos, sementes, rebentos, ovos, e outros animais. Quando os
nossos antepassados hominídeos desceram das árvores para explorar as
savanas africanas, a flexibilidade era novamente vantajosa. O Homo
Habilis e os seus companheiros eram pequenos caçadores furtivos, que
aproveitavam o que podiam das carcaças que sobejavam do repasto dos
leopardos, complementando a sua dieta, com frutas e raízes (veja Binford,
1981); Eles viveram com base no seu engenho, e a selecção natural
favoreceu o hardware que permitiria um rápido percurso da inteligência.
A programabilidade -- e a respectiva capacidade para a adaptação
extrasomática -- tornou possível, para os seres humanos, anteciparem uma
longa tendência evolutiva, tornando-a imensamente mais rápida. A
humanidade, constitui o grupo mais recente, do tipo heterotrófico, que
utiliza quantidades crescentes de energia, mas difere de outras
espécies, nessa capacidade para utilizar mais energia sem recurso a um
processo evolutivo, necessariamente longo. No decurso da breve história
da humanidade, maiores quantidades de energia foram progressivamente
utilizadas pelas mesmas espécies biológicas (ver White, 1949, capítulo
13).
ENERGIA EXTRASOMÁTICA
Algumas inovações humanas determinaram o destino da energia,
canalizado-a através de processos metabólicos. O desenvolvimento das
armas por exemplo, tornou esse processo possível pois possibilitou a
concentração de energia somática para obter alimentos de alto teor
energético e com muita maior eficiência. O homem tornou-se um caçador.
Esta pode ter sido a inovação que permitiu ao Homo Erectus prosperar e
sair do seu berço africano, prosseguindo o processo até aos trópicos do
Velho Mundo (Binford, 1981, pág., 296). Da mesma forma, o uso de roupas
proporcionou a conservação da energia corporal que ajudou a tornar
possível a conquista de regiões mais temperadas.
Mas a inovação mais notável do ser humano foi o uso da energia
extrasomática, em que a energia é produzida para a realização de fins
humanos, mas externos aos corpos de seus utilizadores. E a fonte mais
importante de energia extrasomática, sem dúvida, é o fogo. O fogo foi
usado pelo Homo Erectus no norte da China há mais de 400 mil anos, e
existem evidências claras que sugerem que possa ter sido usado ainda
muito antes disso (Gowlett, 1984, pp. 181-82). Com o uso de fogo, deixou
de ser necessário um grande esforço para rasgar a carne; ela poderia
então ser cozinhada até ficar tenra. O fogo poderia ser usado para
escavar um tronco ou endurecer a ponta de uma vara. O fogo poderia ser
utilizado como cobertura numa acção de defesa e poderia servir para
afugentar abelhas. O fogo poderia manter os animais ferozes à distância.
A exploração da força animal teve um importante papel na densificação da
população, estando por isso na raiz daquilo a que chamamos hoje de
civilização. Os animais puxaram o arado, transportaram os produtos para
comercializar, e forneceram o complemento enriquecido de proteína a uma
dieta de cereais. A força do vento foi utilizada desde muito cedo para
transporte de carga através da água. Mas o fogo permaneceu a fonte mais
importante de energia extrasomática, e tornou possível o desenvolvimento
da cerâmica e da metalurgia.
Porém, até muito recentemente, não houve nenhuma inovação significativa
na utilização do combustível usado para fazer fogo. Durante centenas de
milhares de anos o fogo era feito com tecidos de organismos recentemente
mortos, principalmente madeira. O desenvolvimento do carvão aumentou a
densidade energética da madeira sem a tratar, e deu uma contribuição
importante para a metalurgia. Só alguns milénios depois, é que foi
aplicado este mesmo processo de queima em atmosfera redutora ao fabrico
de carvão. Em Inglaterra, desde a conquista normanda que o carvão tem
vindo a ser usado para o aquecimento dos espaços de habitação, mas o
desenvolvimento do carvão e a sua consequente utilização no fabrico do
aço, veio a originar a revolução industrial. Passado um curto período de
evolução, começaram também a ser explorados o petróleo e o gás natural,
e o Homo Sapiens iniciou a dissipação dos ricos depósitos de energia
orgânica que haviam sido acumulados desde o surgimento da vida na Terra.
Se o lento crescimento destes depósitos, face à entropia universal, pode
ser comparado ao armazenamento de água a montante de uma represa, então
o aparecimento de espécies capazes de dissiparem aquela energia,
rebentaram com a represa.
ENERGIA E RECURSOS
De acordo com o American Heritage Dictionary, recurso é "Uma
provisão disponível que pode ser utilizada quando necessária" e ainda
são "Meios que podem ser usados com vantagem". Por outras palavras, os
recursos incluem todas as coisas encontradas na natureza, e que as
pessoas usam para sua sobrevivência, mas também para qualquer outro
propósito. Trata-se de um conceito muito amplo, tal como é requerido
pela natureza da definição de "animal". Os recursos usados por outros
animais consistem primariamente em alimentos e mais uns quantos
materiais tais como aqueles que são usados na construção dos ninhos. Mas
para o Homo Sapiens, quase tudo pode "ser usado com vantagem".
Para que algo possa ser considerado um recurso, deve estar concentrado
ou organizado de um modo particular, e separado ou separável da sua
matriz. O minério de ferro é considerado um recurso de modo distinto da
terra de jardim, embora ambos contenham ferro. De igual forma, a madeira
de um tronco de carvalho é, de certo modo, um recurso distinto daquele
que é a madeira dos seus ramos.
Usar um recurso significa dispersá-lo. Quando extraímos pedra calcária
de uma pedreira e as utilizamos na construção de monumentos públicos, ou
quando mineramos carvão e o queimamos para mover turbinas, estamos a
usar um recurso concentrado, e seguidamente a dispersá-lo. Quanto à
grande massa contínua de pedra calcária extraída, depois é pulverizada
na forma de vários blocos discretos dispersos em redor e por diferentes
locais; e quanto ao carvão, depois de uma forma breve, emitir calor e
iluminar, transforma-se numa pequena quantidade de cinza e numa grande
quantidade de gás. Podem ser acumulados e armazenados recursos
temporariamente, mas o seu uso real resulta sempre na sua dispersão.
Os recursos são usados pelas suas propriedades materiais ou pela energia
neles contida. A bauxita é um recurso material, enquanto o carvão é um
recurso energético. Alguns recursos podem ser usados de qualquer modo;
por exemplo, a madeira pode ser usada como um material de construção ou
queimada num fogão de lenha, e pode ser usado petróleo no fabrico de
plásticos ou na alimentação dos motores de automóveis.
A exploração de qualquer recurso requer um investimento em energia;
consome-se energia na exploração de uma pedreira ou de um poço de
petróleo. A exploração de recursos energéticos requer que exista um
retorno do investimento aplicado; a menos que a energia que eles
libertam seja consideravelmente maior do que a energia consumida para os
explorar, eles não terão um valor suficiente para serem explorados.
Considera-se que nada é um recurso a menos que possa ser usado; os
recursos são definidos pela tecnologia que torna possível a sua
exploração. Desde sempre que a exploração de um recurso exigiu o consumo
de energia, e a evolução da tecnologia significa a aplicação de energia
num crescente número de substâncias de forma que elas possam ser "usadas
com vantagem". Desde o curto espaço de tempo em os humanos começaram a
viver nas cidades, tem sido usada cada vez mais energia na exploração de
cada vez mais recursos.
A EXPLOSÃO DA POPULAÇÃO
O custo da energia limitou o desenvolvimento tecnológico até ao momento
em que os combustíveis fósseis começaram a ser utilizados, ou seja, até
há pouco menos de trezentos anos. Os combustíveis fósseis contêm tanta
energia que, mesmo quando ineficientemente utilizados, possibilitam aos
investimentos realizados, obter importantes lucros. Quando se queima
carvão para mover dínamos, por exemplo, apenas 35% de sua energia é
transformada em energia eléctrica no final da cadeia de transformação
energética (Ross & Steinmeyer, 1990, pág., 89). Apesar desse baixo
rendimento, a quantidade de energia eléctrica correspondente à energia
despendida por uma pessoa num dia de trabalho, e que corresponde à
queima de cerca de 1.000 calorias obtidas através da alimentação por ela
ingerida, pode ser comprada por menos de dez centavos (Loftness, 1984,
pág., 2). [3]
A
energia abundante e barata proporcionada pelos combustíveis fósseis
tornou possível para os humanos a exploração de uma variedade incrível
de recursos, ampliando efectivamente os seus recursos base. Em
particular, o desenvolvimento da agricultura mecanizada permitiu que
relativamente poucos agricultores conseguissem trabalhar vastas áreas de
terra, produzindo abundância de produtos alimentares e tornando possível
um crescimento descontrolado da população.
Todas as espécies têm tendência a se expandir na medida em que os
recursos, os predadores, os parasitas, e as condições físicas, permitem
essa expansão. Quando uma espécie é introduzida num novo habitat com
recursos abundantes, acumulados antes de sua chegada, a população
expande-se rapidamente até todos os recursos serem completamente usados.
Na produção de vinho, por exemplo, a população de células do fermento no
sumo de uva fresco cresce exponencialmente até que os nutrientes sejam
esgotados, ou até que, resultantes do processo, se tornem tóxicos
(Figura 1).
Um
exemplo que caracteriza os mamíferos é dado pela rena da Ilha St.
Matthew, no Mar de Bering (o Klein, 1968). Esta ilha teve um tapete de
líquenes de mais de quatro polegadas [10 cm] de espessura, numa situação
em que não existiam renas, até que em 1944 foi introduzida uma manada de
29 animais. Antes de 1957 a população tinha aumentado para 1.350
animais; e antes das 1963 o seu número era de 6.000. Mas os líquenes
desapareceram entretanto, e ao longo do inverno seguinte a manada
morreu. Com a chegada da primavera, apenas restavam 41 fêmeas e um macho
aparentemente disfuncional (Figura 2). [4]
O uso da energia extrasomática, e especialmente a energia dos
combustíveis fósseis, tornou possível aos humanos explorarem uma riqueza
de recursos que fora acumulada antes da sua evolução. Esta situação teve
como resultado o crescimento da população típico das espécies
introduzidas (Figura 3).
Por
volta de 8.000 AC, a população mundial seria cerca de cinco milhões.
Pela altura do tempo de Cristo, era de 200 a 300 milhões. Antes de 1650,
era de 500 milhões, e antes de 1800 era mil milhões. A população mundial
atingiu os dois mil milhões em 1930. No início dos anos sessenta era de
três mil milhões; em 1975 era quatro mil milhões; e apenas onze anos
depois já era cinco mil milhões (McEvedy & Jones, 1978,; Ehrlich &
Ehrlich, 1990, pp. 52-55). Esta evolução não pode continuar
indefinidamente; o colapso é inevitável. A única pergunta é quando.
O ABASTECIMENTO ENERGÉTICO
Hoje, a energia extrasomática usada pelas pessoas por todo o mundo
representa o trabalho de cerca de 280 mil milhões de homens. Ou seja, é
como se cada homem, cada mulher, e cada criança em todo o mundo tivessem
50 escravos. Numa sociedade tecnológica, como os Estados Unidos, cada
pessoa tem mais de 200 desses tais "escravos fantasma".
[5]
A maior parte desta energia provém dos combustíveis fósseis que
satisfazem quase 75% das necessidades energéticas mundiais (ver nota 5).
Mas os combustíveis fósseis estão a ser esgotados cem mil vezes mais
rapidamente do que estão a ser formados (Davis, 1990, pág., 56). Às
taxas actuais de consumo, as reservas conhecidas de petróleo terão
desaparecido em cerca de 35 anos; o gás natural em 52 anos; e o carvão
em uns 200 anos, PRIMED, 1990, pág., 145). [6]
Não é
de supor que as reservas adicionais, a serem ainda descobertas, venham a
alterar significativamente esta situação. Recentes avanços nas ciências
geológicas permitiram incrementar a fiabilidade dos diagnósticos de
localização de hidrocarbonetos fósseis, e a superfície da Terra tem sido
analisada com grande detalhe utilizando a informação recolhida dos
satélites em órbita. Estes números são no entanto optimistas porque a
procura de energia não permanecerá às taxas actuais; espera-se que
cresça a um ritmo acelerado. Quanto mais concentrado estiver um recurso,
tanto menos energia se consome na sua utilização; e quanto menos
concentrado estiver um recurso, tanto mais energia se consome na sua
utilização. Por conseguinte, os depósitos mais ricos de qualquer recurso
são os primeiros a serem usados, sendo a seguir explorados os depósitos
crescentemente menos concentrados, mas a um custo cada vez mais elevado.
Quando um minério de alto teor vai desaparecendo, vai sendo necessária
cada vez mais energia para minerar e refinar os minérios de baixo teor.
Quando vai desaparecendo a madeira antiga, será necessário cada vez mais
energia para fazer madeira e papel de árvores mais pequenas. Quando os
recursos piscatórios mundiais vão desaparecendo, será necessário cada
vez mais energia para encontrar e pescar o peixe restante. E quando a
camada superior da terra mundial é perdida — a uma taxa de 75 mil
milhões de toneladas por ano (Myers, 1993, pág., 37) — será necessário
cada vez mais energia para compensar a fertilidade diminuída, da terra
agrícola remanescente.
O
sistema que sustenta a população mundial já está sob stress. O
crescimento per capita do consumo de energia, que tem estado a aumentar
continuamente desde o advento dos combustíveis fósseis, começou a
desacelerar há cerca de 20 anos atrás — e o aumento crescente dessa
desaceleração desde então, sugere que não haverá nenhum crescimento por
volta do ano 2000 (Figura 4). A agricultura está em dificuldade;
utiliza-se cada vez mais fertilizante para compensar a terra arável
perdida (Ehrlich & Ehrlich, 1990, pág., 92), sendo que quase um quinto
da população mundial é subnutrida (Corson, 1990, pág., 68). Na
realidade, a taxa de crescimento da população humana da terra já começou
a decrescer (Figura 5).
As pessoas que acreditam que uma população estável pode viver em
equilíbrio com a capacidade produtiva do ambiente, devem considerar que
a desaceleração do crescimento de população e do consumo de energia não
senão uma evidência de se estar num processo de tendência para um
equilíbrio. Mas quando se compreende o processo que foi responsável pelo
crescimento da população, torna-se claro que o fim do crescimento
representa o início do colapso. A população humana cresceu
exponencialmente esgotando os limitados recursos, tal qual como o
fermento num barril ou como as renas na Ilha St. Matthew, e, sendo
assim, prevê-se um destino semelhante.
FALSAS ESPERANÇAS
Para a substituição dos combustíveis fósseis, e na medida em que vão
escasseando, qualquer fonte de energia alternativa deverá ter como
requisitos ser barata e abundante, e que a tecnologia para a sua
exploração esteja completamente desenvolvida e capaz de ser utilizada em
todo o mundo, de modo que fosse possível uma mudança de fonte energética
num espaço de tempo bastante curto. Nenhuma fonte de energia conhecida
satisfaz estas exigências.
A segunda fonte de energia mais importante dos dias de hoje, depois dos
combustíveis fósseis, é a conversão de biomassa. No entanto a queima de
toda a madeira do mundo, de todo o etanol que se possa acrescentar à
gasolina, e de todos os desperdícios agrícolas utilizados como
combustível, só representam 15% da energia consumida mundialmente
(WRI/IIED, 1988, pág., 111). Com a agravante de que a conversão de
biomassa tem pouco potencial de crescimento, uma vez que compete por
terra fértil com as colheitas de produtos alimentares e com a produção
de madeira.
A produção hidráulica fornece actualmente cerca de 5,5% de toda a
energia consumida. [ver nota 5] O seu
potencial poderá ser até cinco vezes mais (Weinberg & Williams, 1990,
pág., 147), mas isso não é suficiente para substituir os combustíveis
fósseis, e por outro lado as grandes barragens submergiriam terras
agrícolas férteis.
A produção de energia eléctrica através da cisão (fission)
nuclear tem vindo a aumentar, mas este tipo de energia ainda só
representa cerca de 5,2% de toda a energia que o mundo necessita
[ver nota 5] . Os reactores de cisão nuclear
poderiam ter uma cota parte bastante maior, especialmente se fossem
utilizados
reactores reprodutores rápidos (fast-breeder)
[7] No entanto qualquer um com um reactor
reprodutor rápido pode fabricar armas nucleares, pelo que existe uma
considerável pressão política para impedir a sua proliferação. A
confiança pública em todos os tipos de reactores é baixa, e o seu custo
de construção é alto. Estes constrangimentos sociais tornam improvável a
contribuição da cisão nuclear para a satisfação das necessidades
energéticas mundiais que aumentarão quinze vezes nos próximos anos.
A fusão termonuclear controlada é uma solução atractiva para a resolução
dos problemas de energia mundiais, pois o "combustível" a usar é o
deutério que pode ser extraído da água dos oceanos. A energia de um por
cento do deutério nos oceanos de todo o mundo seria aproximadamente 500
mil vezes superior a toda a energia disponível nos combustíveis fósseis.
Mas a fusão controlada é ainda experimental, a tecnologia para sua
comercialização não tem contudo sido desenvolvida, e a primeira unidade
não estará operacional antes de 2040 (Browne, 1993, pág., C12).
Os visionários apoiam o potencial do vento, das ondas, das marés, da
conversão da energia térmica dos oceanos, e das fontes geotérmicas.
Todos estes tipos de aproveitamento energético poderiam fornecer uma
porção da energia em determinadas localidades, mas nenhum pode fornecer
75% das necessidades energéticas mundiais. Os sistemas de colectores
térmicos solares só são viáveis em lugares quentes e solarengos, e os
fotovoltáicos são demasiado ineficientes para suplantar a energia barata
disponível dos combustíveis fósseis.
Enquanto não existir uma fonte de energia capaz de tomar o lugar dos
combustíveis fósseis, a sua disponibilidade diminuída poderá ser
compensada através de um regime de conservação de energia combinada com
uma utilização de fontes de energia alternativas. Porém isto não
resolverá o problema. Enquanto a população continuar a crescer, é fútil
pensar na conservação da energia; com a taxa de crescimento actual (1,6%
por ano), uma redução de 25% de consumo dos recursos energéticos, seria
anulada em apenas dezoito anos. Por outro lado, qualquer utilização
combinada de fontes de energia alternativas que permita continuar o
crescimento da população só pode adiar o dia do ajuste de contas.
OS MECANISMOS DO COLAPSO
Os mecanismos operativos do colapso da população humana serão a fome, o
conflito social, e a doença. Estes desastres principais foram
reconhecidos muito antes de Malthus e foram representados na cultura
ocidental como os cavaleiros do apocalipse [8]
. Eles são a consequência da escassez de recursos e da densidade
populacional.
A fome será o resultado directo da diminuição dos recursos energéticos.
A densa população de hoje está dependente da agricultura mecanizada e do
transporte eficiente para o aprovisionamento dos seus bens alimentares.
A energia é usada desde a produção, passando pela operação dos
equipamentos agrícolas, e pelo transporte dos bens alimentares, até à
sua comercialização final. Na medida em que vão sendo usados recursos
energéticos menos eficientes, os bens alimentares tornam-se mais
dispendiosos, e o círculo de consumidores privilegiados para os quais um
fornecimento adequado irá estar disponível continuará a diminuir.
O conflito social é outra consequência do custo crescente da energia.
Tudo o que as pessoas querem necessita de energia para as produzir, e
quando a energia ficar mais cara, menos pessoas terão acesso aos bens
que desejam. Quando os bens são abundantes, mas particularmente quando
aumenta a capacidade individual de acesso aos bens, as tensões sociais
são contidas: As populações etnicamente diversas sentem frequentemente
que isso é a base para viver em harmonia, os governos nessa altura podem
até ser ineficazes, podem reduzir a capacidade de reacção, sendo
necessário dispender pouco esforço para manter a tranquilidade
doméstica. Mas quando os bens se tornam escassos, e especialmente quando
o acesso individual aos bens diminui continuamente, as tensões étnicas
aparecem, os governos tornam-se autoritários, e os bens são adquiridos,
cada vez mais, por meios criminosos.
Uma escassez de recursos também incapacita os sistemas de saúde pública,
pois a concentração da população leva a uma proliferação de doenças
contagiosas. O desenvolvimento de grandes densidades populacionais ao
longo de história humana levou ao surgimento de doenças contagiosas que
evoluíram para as dizimar. A varíola e o sarampo eram aparentemente
desconhecidos até ao segundo e terceiros séculos DC, quando estas
doenças devastaram a população da bacia mediterrânea (McNeill, 1976,
pág., 105). No século XIV, uma grande concentração populacional na
Europa e na China proporcionou um nicho hospitaleiro para a Peste Negra.
Hoje, com uma população extremamente densa e com todas as partes do
mundo ligadas através das viagens aéreas, novas doenças como SIDA
difundiram-se rapidamente, e um vírus tão mortal quanto este, mas ainda
mais facilmente transmissível, poderia aparecer a qualquer momento.
A fome, os conflitos sociais e a doença interagem de formas complexas.
Se a escassez fosse o único mecanismo do colapso, as espécies poderiam
ser extintas de modo bastante súbito. Uma população que cresce em
resultado de recursos abundantes mas finitos, como é o caso da rena da
Ilha de St. Matthew, tende a esgotar esses recursos completamente. Até
que os indivíduos descubram que os recursos restantes não serão
adequados para a próxima geração, a próxima geração já nasceu. E, na sua
luta pela sobrevivência, a última geração consumirá até a última porção,
de forma que nada restará que possa sustentar nem mesmo uma pequena
população. Mas a escassez raramente actua só. Ela é exacerbada pelos
conflitos sociais que interferem com a produção e distribuição dos bens
alimentares, e que por sua vez debilitam as defesas naturais através das
quais os organismos lutam para fugir à doença.
Paradoxalmente, a doença pode agir para poupar recursos. Por exemplo, se
uma nova epidemia reduzir a população humana a um pequeno número de
pessoas que foram resistentes a essa doença, antes de todos os recursos
mundiais serem severamente esgotados, então as espécies podem ser
capazes de sobreviver mais algum tempo.
APÓS A QUEDA
Mas mesmo que umas poucas pessoas consigam sobreviver ao colapso da
população mundial, a civilização não conseguirá. A complexa associação
das características culturais, das quais os humanos modernos são tão
orgulhosos, é uma consequência da abundância de recursos, e não pode
sobreviver muito tempo ao seu esgotamento.
Como civilização entende-se, numa deriva da sua definição, o hábito de
viver em aglomerados densos, que surgem na medida do crescimento da
população e em resposta à existência de recursos abundantes. Muitas
coisas parecem fluir normalmente quando as pessoas vivem nas cidades, ou
noutro qualquer lugar que se considere civilizado, o que significa a
existência de um sistema político consolidado, de uma especialização
económica, de uma estratificação social, de algum tipo de arquitectura
monumental, e um florescimento de esforços artísticos e intelectuais
(Childe, 1951).
Casos localizados de tal elaboração cultural sempre estiveram associados
ao rápido crescimento populacional. As razões para a abundância de
recursos que proporcionaram este crescimento variam de caso para caso.
Em alguns exemplos, sucedeu que uma população se deslocou para uma nova
região ainda com recursos por explorar; noutros casos deu-se o
desenvolvimento ou a adopção de novas culturas agrícolas, de novas
tecnologias, ou de novas estratégias sociais destinadas ao aumento da
produção. Mas os sumérios, os gregos, os romanos, o maias, e até mesmo
os habitantes da Ilha da Páscoa, todos eles experimentaram uma onda de
actividade criativa à medida em que as suas populações cresciam
rapidamente.
E em todos os casos esta fase criativa, alimentada pela mesma abundância
que promoveu o crescimento da população, acabou por terminar quando o
crescimento cessou. Não há necessidade de procurar razões esotéricas
para o declínio da Grécia ou a queda de Roma; em ambos os casos, o
crescimento de população esgotou os recursos que haviam proporcionado
tudo isto. Depois da Idade de Ouro a população da Grécia recuou
continuamente durante mais de mil anos, de 3 milhões para
aproximadamente 800 mil pessoas. A população do Império Romano caiu de
45 ou 46 milhões, no seu apogeu, para cerca de 39 milhões por volta do
ano 600 DC, e a da parte europeia do império foi reduzida em 25%
(McEvedy & Jones, 1978).
Mesmo se a população mundial pudesse ser mantida constante, em
equilíbrio com os recursos "renováveis", o impulso criativo, que foi
responsável pelas realizações humanas durante o período de crescimento,
chegaria a um fim. E do rápido colapso, que é o mais provável que
aconteça, restará no melhor dos casos um punhado de sobreviventes. Estas
pessoas poderiam sobreviver, durante algum tempo, sustentando-se dos
destroços de civilização, mas logo se aperceberiam de que teriam de
mudar para um tipo de vida mais simples, tal como no passado aconteceu
aos caçadores e agricultores das comunidades de subsistência. Eles não
teriam recursos para construir grandes obras públicas ou avançar a
investigação científica. Eles não poderiam deixar alguns indivíduos
permanecerem improdutivos, a escrever romances ou compor sinfonias.
Depois de algumas gerações eles poderiam mesmo vir a acreditar que os
escombros entre os quais viviam seriam os restos de cidades construídas
por deuses.
Ou pode-se demonstrar impossível, mesmo para uns poucos sobreviventes,
subsistirem com os escassos recursos deixados na esteira de civilização.
As crianças das sociedades altamente tecnológicas, nas quais cada vez
mais por esse mundo afora as pessoas se inserem, não saberiam como
subsistir por si mesmas através da caça e da agricultura de
subsistência. Além disso, a riqueza representada pelos animais
selvagens, que já foram o suporte das sociedades de caçadores, teriam
desaparecido, e a camada superior da terra (topsoil) destruída
pelos tractores teria um fraco rendimento com a utilização da enxada. As
espécies que se tornaram dependentes de tecnologias complexas para
mediar sua relação com o ambiente podem não sobreviver muito tempo à
perda dessa tecnologia.
NA ESCURIDÃO
Para Malthus, o desequilíbrio entre o crescimento da população e os
meios de subsistência poderia ser corrigido de vez em quando através de
desastres naturais, mas a espécie humana poderia, em princípio,
sobreviver indefinidamente. Malthus não sabia que o universo era
governado pela Segunda Lei da Termodinâmica; não entendia a dinâmica
populacional de espécies introduzidas; e não percebeu que os humanos,
tendo evoluído para além dos recursos base aos quais agora recorrem, são
efectivamente uma espécie introduzida no seu próprio planeta.
A curta estadia da espécie humana na Terra marca um momento decisivo na
história da vida deste planeta. Antes do aparecimento do Homo Sapiens,
ocorria a retenção da energia mais rapidamente do que a sua dissipação.
Então deu-se a evolução dos seres humanos e, com a sua capacidade para
dissipar muito da energia que fora armazenada, reestabeleceram
parcialmente o equilíbrio energético do planeta. A evolução de espécies
como o Homo Sapiens será provavelmente uma parte integrante do processo
da vida, que pode acontecer em qualquer lugar no universo. Com o
desenvolvimento da vida, os organismos autotróficos expandem-se criando
assim um lugar para os organismos heterotróficos. Se a energia orgânica
for armazenada em quantidades significativas, ligada a processos
geológicos que levem a isso, então o aparecimento de uma espécie que
possa libertar essa energia, será um elemento perturbador. Tal espécie,
evoluiu ao serviço da entropia, e rapidamente recolocará o seu planeta
num baixo nível energético. Num instante da evolução, a espécie explode
e desaparece.
Se a passagem do Homo Sapiens pela fase de evolução alterar
significativamente a atmosfera da Terra, então pode-se dar virtualmente
a extinção rápida de todos os seres. Mas mesmo que isto não aconteça, a
ascensão e a queda do Homo Sapiens eliminará muitas das espécies. Foi
estimado que estão a ser extintas a uma taxa de 17.500 espécies por ano
(Wilson, 1988, pág., 13), e nos próximos vinte e cinco anos podem ser
extintas um quarto das espécies existentes em todo o mundo (Raven, 1988,
pág., 121).
Trata-se de uma redução radical da diversidade biológica, embora a vida
tenha sobrevivido a outros cataclismos, como o grande colapso no final
do Permiano (último período da era Paleozóica). Porém, é improvável que
qualquer coisa que se pareça bastante com o ser humano possa aparecer de
novo. Os recursos que fizeram dos humanos aquilo que são actualmente,
desaparecerão, e provavelmente não haverá tempo para que o sol possa
repor novos depósitos de combustíveis fósseis de forma a ser possível o
surgimento de novos seres inteligentes e carnívoros para evoluir. O
universo parece ter tido um começo sem igual, uns dez ou vinte mil
milhões de anos atrás (Hawking, 1988, pág., 108). Desde aquele tempo que
uma estrela teve que viver e morrer para fornecer os materiais para o
sistema solar -- o qual tem vários milhares de milhões de anos. Talvez a
vida não pudesse ter acontecido mais cedo. Talvez o Homo Sapiens não
pudesse evoluir mais cedo. Ou mais tarde. Talvez tudo tenha o seu
próprio tempo, uma janela de oportunidade que se abre durante algum
tempo, e que depois se fecha.
AGRADECIMENTOS
Quero agradecer o conselho e o encorajamento de Virgínia Abernethy,
Thomas Eisner, Paul W. Friedrich, Warren M. Hern, David Pimentel, Roy A.
Rappaport, Peter H. Raven, e Carl Sagan que fizeram a revisão prévia
deste documento.
NOTAS
(1) Na versão do seu ensaio de 1798, Malthus propõe que a população
cresce geometricamente enquanto os produtos de subsistência crescem
aritmeticamente. Em edições posteriores, ele propunha que o crescimento
aritmético seria a hipótese possível mais optimista; ele estava bem
informado para prever a actual diminuição de disponibilidade de terras
férteis.
(2) A distinção entre "não renovável" e "renovável" é arbitrária. O
petróleo é considerado não renovável, porque quando usado, desaparece;
enquanto a luz solar é considerada renovável, porque a sua energia pode
ser usada hoje e o sol brilhará de novo amanhã. Mas se considerarmos um
tempo suficiente, as florestas de hoje poderiam transformar-se no
petróleo de amanhã, e num um instante astronómico de tempo, o próprio
sol esgotar-se-á. Só em termos de tempo humano é que se pode dizer que
se trata de um recurso energético renovável; e mesmo assim não é claro
como se deveria medir o tempo humano. A madeira é considerada
frequentemente como sendo um recurso renovável, porque se uma árvore é
cortada, outra crescerá em seu lugar. Mas se uma árvore é retirada da
montanha em vez de a deixar apodrecer lá, os nutrientes que nutririam a
sua sucessora não vão estar disponíveis. Se a madeira for continuamente
removida, a fertilidade da floresta diminui, e dentro de alguns gerações
humanas a floresta desaparecerá.
(3) Loftness na verdade diz seis centavos. Mudei este valor para dez
centavos como correcção da inflação.
(4) Quando os recursos explorados por uma espécie introduzida são
organismos vivos, estes podem-se reproduzir -- e podem eventualmente
evoluir no sentido de criar mecanismos de defesa que proporcionem um
equilíbrio entre o predador e a presa (ver Pimentel, 1988). Porém, a
camada arável, os minerais, e os combustíveis fósseis explorados pelos
seres humanos não têm esta capacidade. Eles parecem-se mais com a
quantia finita de açúcar num barril ou com os líquenes abundantes mas de
lento crescimento na Ilha St. Matthew.
(5) A produção mundial de energia resultante de combustíveis fósseis em
1992 era 302.81 x 1015 BTU, enquanto a energia produzida por reactores
nucleares era 21.23 x 1015 BTU, e a produzida por fontes hidroeléctricas
era 22.29 x 1015 BTU (Energy Information Administration, 1993:269).
Estima-se que a biomassa represente aproximadamente 15% da energia
extrasomática mundial (WRI/IIED, 1988:111). As restantes fontes de
energia dão apenas uma contribuição secundária (Corson, 1990:197).
Assim, a energia extrasomática total usada mundialmente deve estar na
ordem de 407.45 x 1015 BTU por ano. A população mundial é cerca de 5.555
mil milhões (a CIA, 1993:422). A energia despendida por um indivíduo
durante um dia de trabalho considera-se ser 4.000 BTU (Loftness 1984:2,
756). O consumo de energia nos Estados Unidos é cerca de 82.36 X 1015
BTU (Energy Information Administration, 1993:5). A população
norte-americana é de 258 milhões (a CIA, 1993:404). [NT: 1000 BTU =
0,293 kWh]
(6) Estas são as reservas conhecidas em 1988, de acordo com a taxa de
consumo de 1988. Subtraí seis anos aos valores citados para estar de
acordo com o tempo já decorrido.
(7) Loftness (1984:48) menciona a mesma quantidade de urânio, usado num
reactor reprodutor rápido, produzirá 60 vezes a energia de um reactor da
água-leve. Hafele (1990:142) diz que serão 100 vezes no máximo.
(8) De acordo com uma interpretação tradicional, os quatro cavalos
representam a guerra, a escassez, a peste, e o Cristo retornado. O texto
original (Revelações 6:2-8) não está contudo muito claro.
(NT1) Podemos distinguir dois tipos de desenvolvimento da vida: a que
depende, da absorção "directa" da energia disponível, cuja principal
fonte reside na radiação solar, sendo neste sentido auto-sustentável
(autotróficos) e, por outro lado, da que depende da anterior para o seu
próprio desenvolvimento, apresentando por isso, características de
dependência energética (heterotroficos).
REFERENCIAS
Binford, Lewis R. (1981). Bones: Ancient men and modern myths. New York:
Academic Press,
Brain, C. K. (1981). The hunters or the hunted? An introduction to
African cave taphonomy. Chicago: The University of Chicago Press.
Browne, Malcolm W. (1993). Reactor passes point of no return in uphill
path to fusion energy. New York Times, Dec. 7, 1993, pp. C1 & C12.
Central intelligence Agency (CIA). (1993). The World Factbook 1993.
Washington, DC: Central Intelligence Agency.
Childe, V. Gordon. (1951). Social evolution. London: Watts.
Corson, Walter H., (Ed.). (1990). The global ecology handbook: What you
can do about the environmental crisis. Boston: Beacon Press.
Davis, Ged R. (1990). Energy for planet earth. Scientific American
263(3), 55-62.
Dieter, Georg. (1962). Biologische Strukturen und ihre Ver5nderungen in
Raum und Zeit, dargestellt an der Kinetik von Vermehrung, Sterben und
Zytolyse bei Saccharomyces cerevisiae. Dissertation zur Erlangung des
Doktorgrades bei der Landwirtschaftlichen Fakultat der Justus
Leibig-Universitat. Fotodruck: Mikrokopie G.m.b.H. Monchen 2, Weinstr.
4.
Dorf, Richard C. (1981). The energy fact book. New York: McGraw-Hill,
Energy Information Administration. (1993). Annual energy review 1992.
Report no. DOE/ EIA-0384(92). Washington, DC: U.S. Department of Energy.
Ehrlich, Paul R., & Ehrlich, Anne H. (1990). The Population explosion.
New York: Simon and Schuster.
Gowlett, John A. 1. (1984). Mental abilities of early man: A look at
some hard evidence. in R. Foley (Ed.). Hominid evolution and community
ecology, pp. 167-92. London: Academic Press.
Hafele, Wolf. (1990). Energy from nuclear power. Scientific American
263(3), 137-44,
Hawking, Stephen. (1988). A brief history of time: From the Big Bang to
black holes. New York: Bantam,
Klein, David R. (1968). The introduction, increase, and crash of
reindeer on St. Matthew Island. Journal of Wildlife Management 32(2),
350-67.
Loftness, Robert L. (1984). Energy handbook, 2nd ed. New York: Van
Nostrand Reinhold.
Malthus, Thomas Robert. (1986 [1826]). An essay on the principle of
population. The Works of Thomas Robert Malthus, Ed. E. A. Wrigley and D.
Souden, vol. 2 and 3. London: William Pickering.
McEvedy, Colin, & Jones, Richard (1978). Atlas of world population
history. New York: Penguin.
McNeill, William H. (1 976). Plagues and peoples. Garden City, NY:
Anchor Press.
Myers, Norman (Ed.). (1993). Gaia: An atlas of planet management, rev.
ed. Garden City, NY: Anchor/Doubleday.
Odum, Eugene P. (1971). Fundamentals of ecology. 3rd ed. Philadelphia:
W. B. Saunders Company.
Pimentel, D. (1988). Herbivore population feeding pressure on plant
hosts: Feedback evolution and host conservation. Oikos 53(3), 289-302.
Raven, Peter H. (1988). Our diminishing tropical forests. 1988. In E. 0.
Wilson (Ed.). Biodiversity, pp. 119-21. Washington: National Academy
Press.
Ricklefs, Robert E. (1979). Ecology. 2nd ed. New York: Chiron Press.
Ross, Marc H., & Steinmeyer, Daniel (1990). Energy for industry.
Scientific American 263(3), 89-98.
Simpson, George Gaylord. (1949). The meaning of evolution. New Haven,
CT: Yale University Press.
Starr, Cecie, & Taggart, Ralph (1987). Biology: The unity and diversity
of life, 4th ed. Belmont, CA: Wadsworth.
United Nations. (1952-91). Energy statistics yearbook, New York: United
Nations (E/F.93.XVII.5).
_. (1953). The determinants and consequences of population trends. New
York: United Nations (5T/SOA/Ser.A/I 7).
_. (1993). World population prospects: The 1992 revision. New York:
United Nations (ST/ESA/SER.A/135).
Weinberg, Carl J., & Williams, Robert H.. (1990). Energy from the sun.
Scientific American 263(3), 147-55.
White, Leslie A.. (1949). The science of culture: A study of man and
civilization. New York: Farrar, Strauss and Giroux.
Wilson, E. O. (1988). The current state of biological diversity. In E.
O. Wilson (Ed.). Biodiversity, pp. 3-18. Washington, DC: National
Academy Press.
World Resources Institute and International Institute for Environment
and Development (WRI/IIED). (1988). World Resources 1988-89. New York:
Basic Books.
_. (1990). World Resources 1990-91. New York: Oxford University Press.
[*] Da Universidade Cornell, EUA.
Publicado originalmente em "Population and Environment: A Journal of
Interdisciplinary Studies", Volume 16, Number 4, March 1995, pp.
301-19. Transcrito em
http://dieoff.org/page137.htm e em
http://www.energybulletin.net/3917.html . Tradução de MJS.
Este ensaio encontra-se em
http://resistir.info/
. |